quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Anais da Ditadura - A Grande Fogueira

Em uma manhã de 1977, a Polícia Federal incinerou 3 mil quilos de produtos culturais.
 A lista é variada: dos filmes Spartacus e Cleópatra a disco de 
Caetano Veloso e desenhos dos Flintstones
Ilustração - João Brizzi 

Publicado originalmente no site da revista Piauí, em 9 de novembro de 2017

Anais da Ditadura - A Grande Fogueira

Documentos inéditos mostram como o aparato de censura do regime militar usou empresas privadas para queimar programas de tevê, filmes, discos e livros proibidos – de Silvio Santos a José de Alencar

Por Mariana Filgueiras*

No dia 25 de janeiro de 1977, uma comitiva de intelectuais liderada pela escritora Lygia Fagundes Telles desembarcou em Brasília para uma reunião com o ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel. Naquela terça-feira, o grupo conseguiu pôr na mesa de Armando Falcão um abaixo-assinado contra a censura, uma peça que ficaria conhecida como “Manifesto dos Intelectuais”.

Com mais de mil signatários, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Otto Maria Carpeaux, o documento era a maior manifestação pública da classe artística desde a Passeata dos Cem Mil, em 1968, e repudiava “a sequência de inexplicáveis arbítrios” que proibiam peças de teatro, filmes, músicas, programas de tevê e livros.

O manifesto foi encaminhado à Polícia Federal dois dias depois, pelo próprio ministro, com a recomendação de que o órgão responsável pela censura se manifestasse. Nunca houve resposta. Naquela mesma manhã, funcionários do governo dedicavam-se ao exato oposto da atividade de abrandar a repressão intelectual: eles queimavam toneladas de obras culturais em um forno construído no Aeroporto Internacional de Brasília, a 15 quilômetros do local da reunião.

A coincidência de eventos revelou-se numa tarde de outubro deste ano, quando o historiador Lucas Pedretti pesquisava para sua dissertação de mestrado sobre a repressão a bailes de soul music no Rio de Janeiro dos anos 70. Logado no sistema do Arquivo Nacional, ele se deparou com documentos produzidos pela própria PF que comprovam a prática promovida pelo regime: são dezoito autos de incineração registrados. Além do forno de Brasília, outro forno de uma das empresas do grupo Votorantim também foi usado para transformar filmes, livros e programas de tevê em cinzas.

“Às 10h do dia 27.01.77, foi cremado no incinerador do Aeroporto Internacional de Brasília aproximadamente 3 000 kg de filmes, VT, revistas, livros, fitas magnéticas e discos, conforme solicitação do Ministério da Justiça – Departamento de Polícia Federal”, indica um dos autos de incineração encontrados pelo historiador.

O documento traz a lista completa do que foi para a fogueira: 436 filmes, desde clássicos como Spartacus, de Stanley Kubrick (1960) e Cleópatra, de Robert Mamoulian (1963), a chanchadas e filmes B, como 007 1/2 no Carnaval, de Victor Lima (1966), com Chacrinha e Costinha no elenco, e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968). Dos cinquenta videoteipes queimados naquele dia, constavam desde gravações de programas de Silvio Santos, Hebe Camargo e Flavio Cavalcanti, até shows completos de Elizeth Cardoso e Ray Charles. Havia ainda 450 exemplares de O Pasquim e 71 discos contendo música árabe.

A maioria dos livros incinerados tinha títulos eróticos e populares como Chinesinha Erótica (21 exemplares), Cidinha, a Incansável (32) e De Prostituta a Primeira Dama (16). Outras 204 peças eram volumes do livro O Último Tango em Paris, de Robert Alley, inspirado no filme de Bernardo Bertolucci, de 1972. No total, os 3 mil quilos de material compreendiam 2 854 itens.

“Os documentos são a comprovação cabal de que, além de proibir a publicação e a circulação de livros, a ditadura militar brasileira também os queimava usando fornos de aeroporto e de empresas privadas. Em alguns casos, ainda os transformava em pastas de papelão”, citou Pedretti, enquanto mostrava a documentação a uma de suas professoras, a historiadora Luciana Lombardo, especialista em estudos sobre a censura no Brasil, num café do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. “Como os documentos disponíveis no Arquivo Nacional representam uma parcela ínfima do que foi efetivamente produzido, é provável que tenham sido muitos mais”, completou.

Pedretti debruçou-se sobre os documentos, produzidos à época com o respaldo da Lei da Censura, mais especificamente pelo artigo 5o inciso II (“A distribuição, venda ou exposição de livros e periódicos que tenham sido proibidos, após a verificação prevista neste decreto-lei, sujeita os infratores, independentemente da responsabilidade criminal, à perda de todos os exemplares da publicação, que serão incinerados a sua custa”). Os autos registrados na coleção encontrada pelo pesquisador foram cumpridos entre 1976 e 1988 no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul, no Ceará e em São Paulo. Em comum, tinham a descrição detalhada dos itens destruídos e o fato de usarem também incineradores de empresas privadas.

Além do aeroporto, houve queimas de livros, revistas e filmes entre 1977 e 1979 na Companhia de Papel e Papelão Pedras Brancas, empresa hoje inativa que à época pertencia ao Grupo Votorantim e ficava no município de Guaíba, no Rio Grande do Sul; na empresa Brasil Oiticica S/A, em Fortaleza, em 1976 e 1977, também desativada; na Riopel S/A, em São José do Rio Preto, em 1987; e na empresa Aparas São Caetano, assinado em Porto Alegre em 1988. Nesta última, os autos registram ainda a queima de documentos antigos da censura (memorandos, ofícios de Justiça, correspondências e “laudos de exame de material obsceno”) e até de figurinos de Carnaval.

“É outro dado que chama atenção: há autos de destruição que datam de fins de 1987 até 1988. Ao mesmo tempo que as discussões da Constituinte evoluíam, livros continuavam sendo queimados. Nesse caso, é possível imaginar que a Censura, sabendo que um regime democrático estava prestes a ser instalado, procedeu à destruição e queima de materiais apreendidos em seus galpões”, arrisca Pedretti, lembrando que esses lotes citados nos documentos eram resultados de apreensões feitas em distribuidoras, editoras e emissoras de tevê.

“A informação contrasta com as narrativas que tentam afirmar que a ditadura teria terminado em 1979, por exemplo. A Nova República nasceu sob o signo da queima de livros. Para uma democracia, é uma marca difícil de apagar. Pensando de forma mais ampla, isso mostra que o fim da nossa ditadura não inaugurou um processo de reformas institucionais, prestação de contas e transparência, pelo contrário: velhas práticas se reafirmaram, e no lugar de investigações e pedidos de perdão por parte do Estado, tivemos o silêncio”, analisa o historiador, que pretende levar a pesquisa adiante.

Os documentos apareceram enquanto Pedretti procurava o nome do apresentador de tevê dos anos 60 e 70 “Flavio Cavalcanti” no acervo digitalizado do Arquivo Nacional. Depois de trabalhar por três anos como estagiário da Comissão Estadual da Verdade do Rio – órgão criado no governo Dilma Rousseff para elucidar crimes ocorridos durante a ditadura, com atividades encerradas em 2015 –, ele continuou pesquisando atos de arbítrio do regime militar. Escolheu a repressão aos bailes de soul como tema para o mestrado e deparou-se com o nome de Cavalcanti, monitorado por militares desde 30 de agosto de 1970 – quando levou ao seu programa o cantor Tony Tornado, também fichado pelo regime.

“Tony havia sido levado ao Departamento de Ordem Política e Social por evocar os Panteras Negras no palco do Festival Internacional da Canção. Conhecendo essa história, pesquisei pelo nome do cantor e achei inúmeros documentos, inclusive relatórios do Centro de Informações do Exército e Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) sobre uma ida dele ao programa do Flavio Cavalcanti. Incluindo um relatório que termina com a recomendação de censura a qualquer menção aos termos ‘raça’ e ‘racismo’. Ao aprofundar a pesquisa a partir do nome de Cavalcanti, um dos documentos que apareceu foi precisamente um ‘Termo de Incineração’, que informava a queima de videoteipes dos seus programas de tevê.”

A partir deste primeiro, em que anotou o termo “Auto de Incineração” e “Termo de Incineração”, Pedretti encontrou os outros documentos ao buscar palavras semelhantes no sistema de informações do Arquivo Nacional, onde estão abrigadas as coleções do fundo da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Fisicamente, os autos estão guardados dentro de 12 caixas na sede do Arquivo, em Brasília.

Autora de uma tese de doutorado sobre livros apreendidos pela polícia política no Rio de Janeiro e professora de História da PUC-RJ, Lombardo ficou animada com os detalhes revelados na papelada. Como se desse uma aula informal numa das mesas do café, ela lembrou que as fogueiras de livros remontam principalmente à Inquisição e ao Nazismo – na noite de 10 de maio de 1933, integrantes do partido nazista queimaram 20 mil livros na praça conhecida como Bebelplatz, em Berlim, onde hoje há um memorial para recordar o episódio –, mas que também aconteceram nas ditaduras latino-americanas e na brasileira, com características particulares.

“Esses documentos são fascinantes e confirmam algo que a historiografia já discute há um certo tempo: a existência de uma prática sistemática de destruição de livros no período. O fato de a ditadura brasileira ter incinerado milhares de livros não faz parte de nossa memória coletiva sobre o período pós-64”, afirmou Lombardo, comparando: “No Chile, sabemos da existência de fogueiras públicas ao mesmo tempo que Pinochet alimentava com as apreensões de livros sua biblioteca privada. Na Argentina, um dos crimes pelos quais foi acusado o General (Jorge Rafael) Videla foi o de ‘genocídio cultural’, por ter queimado 80 mil livros da biblioteca de Rosário, em 1977. Mas aqui essas histórias ainda precisam ser mais conhecidas.”

Apesar de terem sido citados na historiografia brasileira, autos de incineração como os descobertos por Pedretti foram objeto de poucos estudos acadêmicos: a pesquisadora da USP Sandra Reimão cita documentos desse tipo em seu livro Repressão e Resistência: Censura a Livros na Ditadura Militar, de 2011; Douglas Marcelino, da UFRJ, também trata desses autos em sua dissertação de mestrado “Subversivos e pornográficos: censura de livros e diversões públicas nos anos 1970”, também de 2011; e Adriane Piovezan e Antonio Fontoura Jr. os citam no artigo “Corpos censurados: moralismo no período da ditadura civil-militar e a literatura de Cassandra Rios”, de 2013. Os trabalhos, no entanto, não enveredam pelos detalhes de cada sessão de incineração, como os usos de fornos de empresas e aeroportos para a queima, informação que pode ser crucial em novas investigações sobre as relações entre a ditadura militar e empresas privadas.

Nos autos de incineração cumpridos em 1976, a lista de livros queimados repetia o padrão: a maior parte dos títulos era de literatura erótica (Emanuelle, a Antivirgem, Maldição Erótica, Belas e Corrompidas, entre outros), mas havia ainda Lucíola, de José de Alencar; Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca; ou O Abajur Lilás, de Plínio Marcos. No dia 16 de junho de 1976, foram incinerados nos fornos da mesma Companhia de Papel e Papelão Pedras Brancas, em Guaíba, 36 capas do disco Jóia, de Caetano Veloso, em que ele aparecia nu com a mulher, Dedé, e o filho, Moreno Veloso.

“Havia uma verdadeira obsessão censória com o tema da sexualidade, como demonstrou Deonísio da Silva ainda nos anos 80, no livro Nos Bastidores da Censura. Um profundo moralismo e conservadorismo nos costumes levava a constantes denúncias na Divisão de Censura de Diversões Públicas, porque havia a crença de que a chamada literatura ‘obscena’ ameaçaria a ordem política e social tanto quanto a literatura ‘subversiva’”, avaliou Luciana. “Longe do cânone e mais próxima de uma literatura marginal, essa produção literária era sobretudo feminina e popular, peça importante para a compreensão da sociedade brasileira na época.”

A historiadora cita Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard, que estudou o papel desse tipo de literatura no Ocidente, especialmente na França pré-revolucionária. “A literatura erótica é importante porque desafia os costumes da época, a moral religiosa e, no limite, os poderes instituídos. Darnton mergulha no que ele chama de ‘submundo das letras’ para mostrar como os livros proibidos publicados por autores e editores malditos eram mais conhecidos que iluministas como Rousseau ou Voltaire. Livros ‘pornográficos’, libelos políticos, obras contrárias à religião, biografias escandalosas e escritos utópicos circulavam de forma clandestina e se tornaram os livros mais vendidos da França no século XVIII”, explicou.

Procurado pela piauí, o Grupo Votorantim, que tem um centro de memória da empresa em São Paulo, alegou desconhecer o que se passava na fábrica de Guaíba, apesar de os documentos mostrarem que a prática se repetiu por três anos seguidos (1977, 1978 e 1979). Em nota oficial, o setor de Comunicação da empresa informou: “Nunca houve conhecimento por parte da direção da empresa desse fato relatado em relação à fábrica de Guaíba. A Votorantim lamenta profundamente essa postura da planta em Guaíba, pois ela contraria os seus valores. A companhia, inclusive, foi protagonista da primeira manifestação pública de empresários contra o regime militar, em 1978. Naquela ocasião, o Dr. Antônio Ermírio de Moraes foi o porta-voz do ‘Manifesto dos 8’ – documento assinado por oito empresários, entre eles Cláudio Bardella, José Mindlin, Paulo Villares, Jorge Gerdau e Severo Gomes, e que pedia a redemocratização do país.” Questionada, a empresa afirmou que vai incluir em seu centro de memória as informações sobre a queima de filmes e livros na antiga fábrica de papel do grupo.

A Infraero afirmou que não tem mais registros sobre a prática citada. Em relação aos incineradores, a empresa informou que de fato aeroportos antigos contavam com este tipo de equipamento para “tratamento de resíduos de risco biológico e químico”, mas que todos foram desativados “por não atenderem mais aos parâmetros evolutivos da legislação”.

Enquanto pedia mais um café, a historiadora Lombardo lembrou de uma frase do escritor argentino Julio Cortázar, ao comentar as fogueiras de livros da ditadura em seu país: “Ele dizia que quando se queimam livros, são queimados também todas as pessoas que cercam os livros, ‘os leitores desses livros e aqueles que os haviam escrito’. A prática arbitrária de destruição de livros não se limita a cercear a livre circulação de ideias, mas indica um desejo de destruir o outro, eliminar registros dissidentes”, detalhou a professora, fazendo um paralelo com as recentes manifestações contra exposições artísticas e nudez no país.

“O que esses documentos mostram é sobretudo a inutilidade da censura e da interdição moralista que costuma criar efeitos opostos aos desejados pelos censores: uma vez proibidas, as obras de arte e literárias se tornam ainda mais desejadas e encontram caminhos criativos para seguir circulando.” A historiadora relembra ainda a distopia descrita por Ray Bradbury no romance Fahrenheit 451, de 1953, adaptado para o cinema por François Truffaut em 1966, e que descreve uma sociedade na qual os livros eram completamente proscritos. Numa das cenas do filme – que não figura em nenhum dos autos de incineração encontrados no Arquivo Nacional –, uma personagem pergunta a um sujeito que tem por ofício incinerá-los: “É verdade que houve um tempo em que se apagavam incêndios em vez de queimarem livros?”

Mariana Filgueiras é jornalista.

Texto e imagem reproduzidos do site: piaui.folha.uol.com.br

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Por que a desigualdade ainda persiste no Brasil


Publicado originalmente do site Nexo Jornal, em  25 Dez 2017 

Por que a desigualdade ainda persiste no Brasil, segundo este pesquisador Luiza Bandeira

Rafael Osorio, especialista em pobreza e desigualdade, afirma que dificuldade de ascensão social mostra que Brasil não é meritocrático

O IBGE divulgou, no dia 15 de dezembro, a “Síntese dos Indicadores Sociais”, pesquisa que analisa as condições de vida dos brasileiros. O levantamento mostra que, em 2016, o Brasil tinha 13,4 milhões de pessoas (ou 6,4% da população) vivendo em condição de extrema pobreza – com menos de US$ 1,90 (cerca de R$ 6) por dia, critério de análise adotado pelo Banco Mundial. 

A pesquisa mostrou também que a desigualdade social no Brasil persiste. De acordo com os dados, os brasileiros mais ricos, que se encontram no topo da pirâmide social, têm 14 vezes mais chances de continuar nessa posição do que pessoas mais pobres têm de ascender socialmente. A mobilidade social no Brasil, segundo a pesquisa, é de “curta distância”, ou seja, metade da população consegue melhorar de vida em relação aos pais, mas essa mobilidade está concentrada nos estratos mais baixos da população. São, por exemplo, filhos de agricultores que se tornam pedreiros ou empregadas domésticas.

“A pesquisa confirma uma coisa que a gente já sabe há muito tempo: o Brasil é uma sociedade muito pouco meritocrática”, afirmou em entrevista ao Nexo Rafael Osorio, coordenador sênior de pesquisa do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG, na sigla em inglês) e pesquisador do Ipea. Leia abaixo trechos da entrevista, concedida por telefone.

A pesquisa mostra que mais de13 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Brasil. Como interpretar esse dado, considerando os programas de proteção social? 

RAFAEL OSORIO O número é para a linha de pobreza de US$ 1,90 / dia, que é mais elevada do que o atual corte de elegibilidade para a extrema pobreza do programa Bolsa Família (PBF), o principal programa para a extrema pobreza no Brasil. O corte do PBF é de R$ 85 [por mês, por pessoa]; nesse corte, seriam por volta de 8,6 milhões os extremamente pobres. O ponto é que o PBF não é, nem nunca foi, suficiente para fazer as famílias saírem da pobreza apenas com o benefício. As famílias têm de contar com o trabalho de seus membros adultos. Esse trabalho costuma ser informal e precário, e a renda que dele advém é incerta e variável. O que o Bolsa Família faz é reduzir a incerteza, acrescentando uma fonte de renda estável para a família. Parte das famílias extremamente pobres continuava nessa situação, mesmo somando o benefício às rendas do próprio trabalho.

Embora o PBF de fato alivie a pobreza de muitas famílias e ajude outras a superá-la, o fato é que as linhas de ingresso do programa vêm se depreciando, assim como os valores dos benefícios. O PBF continua a ser uma fonte, mas não é possível mais consumir o tanto que se consumia antes. A boa notícia é que a maior parte dos extremamente pobres e pobres está no Cadastro Único.

 A coisa mais difícil para implementar um programa de pobreza é identificar os pobres, não errar muito e começar a fazer transferências para eles. O Brasil já tem tudo isso montado. Se o próximo governo decidir que, em vez de fazer Refis e perdoar dívida de ruralista, nós vamos fazer uma reforma da Previdência para acabar com aposentadoria de juiz acima do teto, e de funcionário público, e vamos usar o dinheiro para dobrar o Bolsa Família, em tamanho e benefícios, dá para fazer isso de um mês para o outro. A parte mais difícil da operação, que é montar isso, já está pronta. Temos uma desigualdade muito grande. A gente tem como tirar mais do andar de cima para dar para o andar de baixo. O que falta é vontade política para realmente enfrentar a pobreza, em vez de ficar tomando medidas que simplesmente reproduzam privilégios. 

A pesquisa do IBGE mostrou persistência na desigualdade de renda. Como a desigualdade de renda e a pobreza se relacionam no Brasil? 

RAFAEL OSORIO Uma anda junto com a outra. Estudos já mencionaram várias vezes que o Brasil não é propriamente um país pobre, mas é um país muito desigual. Há basicamente dois caminhos pra você resolver o problema da pobreza. Um é: a sociedade cresce. Você aumenta a renda, a renda de todo mundo aumenta, e pessoas saem da pobreza porque a renda está aumentando. Esse é o caminho do crescimento. E o outro caminho é o da redução da desigualdade. Como o Brasil é um país muito desigual, existe espaço para fazer transferências dos mais ricos para os mais pobres, mesmo sem não crescer muito. 

Nos últimos tempos, a redução da pobreza no Brasil ocorreu principalmente por conta do crescimento econômico, embora na última década tenha estado associada também com pequena queda da desigualdade. Daí a situação que a gente vive hoje: estamos enfrentando uma crise econômica, a pobreza está subindo. No Brasil, a pobreza tem respondido pouco às políticas, no geral, e respondido mais à dinâmica do crescimento econômico como um todo. 

E como isso se relaciona com a ascensão social?

RAFAEL OSORIO A pesquisa do IBGE confirma uma coisa que a gente já sabe há muito tempo: que o Brasil é uma sociedade muito pouco meritocrática, onde a mobilidade é essencialmente de curta distância. As pessoas não estão longe do seu status de origem, e os grandes estratos da base da pirâmide se diferenciam apenas entre o rural e o urbano. A ascensão está ligada ao processo de urbanização, industrialização e modernização. É a mobilidade estrutural, que ocorre porque a estrutura mudou. Quando se olha para empregadas domésticas e pedreiros, você percebe que muitos são filhos de trabalhadores rurais. Eles aparecem na pesquisa como exemplos de ascensão social. Mas isso não é porque a sociedade está mais aberta às trocas entre classes. Eles melhoraram de vida em alguma medida. Mas, do ponto de vista relativo, da pirâmide social, elas estão em posição que não é muito diferente da de seus pais, no passado. A sociedade foi muito aberta para que filhos de trabalhadores rurais se tornassem empregadas domésticas e pedreiros, mas não para que os filhos dessas famílias se tornassem médicos, advogados e engenheiros. Essa mobilidade não representa uma maior abertura da sociedade para trocas entre classes, que é o que você espera numa sociedade meritocrática. 

Isso é muito ruim, porque a grande promessa do liberalismo é que você teria uma desigualdade que seria justa, que funcionaria como um sistema de incentivo para que as pessoas se esforcem. Os médicos, por exemplo, ganham bem, mas têm de estudar muito. Eles merecem uma recompensa. O problema é que, no Brasil, a recompensa está muito além. Ela não está recompensando simplesmente esforço, mas ela está remunerando privilégios. 

Quando a gente vai ver em outros lugares do mundo, os países que têm menor desigualdade, como Holanda, Suécia, Dinamarca, Finlândia, são os países que têm menor desigualdade de oportunidades. Nenhum país do mundo é meritocrático de verdade, a origem social influencia todos eles, mas em alguns influencia menos. E quais são esses países? Os países onde em geral você encontra um sistema de ensino, principalmente para primeira infância, em que as pessoas sequer pensam em matricular os filhos em escolas privadas. Como as crianças passam por estímulos razoavelmente uniformes, determinados por uma política educacional, o Estado consegue contrapor de alguma forma a desvantagem que as crianças trazem de casa. Quando os indivíduos estão formados, você pode até adotar medidas compensatórias, mas é muito difícil você fazer com que isso seja redistributivo e não apenas compensatório.

 A pobreza no interior do Nordeste, por exemplo, é muito elevada. O Censo de 2010 mostra que, em áreas rurais de Alagoas, quase 40% da população com mais de 15 anos é analfabeta. Algumas pessoas dizem: vamos fazer inclusão produtiva, qualificação profissional. Mas como você faz isso com pessoas analfabetas ou analfabetas funcionais? Qual o material de curso, você vai dar alguma coisa para ela ler? E vamos dizer que fosse possível educar grande parte dos analfabetos adultos de Alagoas. Tem emprego no município onde eles moram? As soluções não são fáceis e imediatas. 

Em relação a políticas públicas, quais são as perspectivas em relação à pobreza no futuro?

RAFAEL OSORIO  As políticas sociais vão continuar sendo fundamentais por muito tempo. A gente pode ter momentos melhores, em que o Bolsa Família vai diminuir de tamanho, mas é uma despesa que a gente vai ter de continuar tendo. Essas famílias das quais a gente está falando têm uma capacidade limitada de se empregar, e quando estão ocupadas a ocupação é incerta, instável. O Brasil tem ido bem nos últimos anos, mas a gente tem de entender que vamos ter de fazer assistência social e transferência de renda ainda por muito tempo, porque é a solução que a gente tem para essas pessoas, porque não investimos nelas no passado. Algumas vão ter meios para superar essa condição, mas não todas. 

E educação é muito importante. É clichê, mas tem de investir em educação. Isso entra na esfera de uniformizar os estímulos. O período mais importante para definir o futuro das pessoas é o que acontece antes do seis anos de idade, onde a influência da família é muito grande. Quando eu falo com meu filho, passo para ele um vocabulário que ele vai encontrar, quando chegar à escola. O filho da família de baixa renda não necessariamente vai ter isso. Ele vai chegar numa escola cuja linguagem não é a que ele fala. Ele vai ter mais dificuldade de dominar essa linguagem, ele vai ter um percurso a mais que o outro já teve. 

Depois você tem de cuidar da trajetória. No Brasil a gente teve uma expansão do ensino superior, mas ainda é muito difícil que jovens de baixa renda completem o fundamental, façam a transição para o médio, da educação básica, obrigatória e gratuita.

Pense em uma pessoa que nasceu na fronteira do Piauí com o Maranhão. Se fosse um menino ou menina que tinha potencial para inventar a cura da Aids, nós o perdemos, porque essa pessoa não terminou o segundo grau, não terminou ensino médio, não vai para a faculdade. Nós estamos desperdiçando esse talento quando a gente permite que as estruturas que garantem os privilégios dos filhos do ricos se mantenham, e isso é ruim pra todo mundo, inclusive para os ricos.

Texto e imagem reproduzidos do site: nexojornal.com.br 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar..."



 Ginaldo dos Santos, morador em situação de rua em Aracaju (SE)
Foto: Anderson Barbosa/G1 Sergipe.

 O barraco de dona Maria José fica em uma praça na Zona Sul da capital sergipana
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

 Depois que a casa desabou, dona Maria José foi morar nas ruas de Aracaju (SE) 
Foto: Anderson Barbosa.



Os profissionais do "Consultório na Rua" atendem a população 
levando vários serviços, como serviços de médicos e psicológos.
 Foto: Consultório na Rua

Publicado originalmente no site G1/SE., em 20/12/2017 

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua

Cerca de 200 pessoas vivem nas ruas de Aracaju (SE), segundo a prefeitura.

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua 'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua

Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

A poucas horas da abertura do Centro Comercial de Aracaju, o dia amanhece lentamente e revela uma cidade que muita gente nem imagina. Nas calçadas das lojas, sob as marquises, dezenas de pessoas despertam para mais um dia de luta. Segundo a prefeitura, cerca de 200 pessoas vivem em situação de rua na capital, longe das famílias, muitas desempregadas e com pouco estudo.

"A vida aqui é ruim de noite, porque pra dormir, tem muitos atentados, a pessoa dorme e não dorme, não vive. Eu queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor. Vim para Aracaju a procura de emprego, mas acabei ficando nas ruas", conta Ginaldo dos Santos, 49 anos, sergipano que há 10 anos saiu do município de Ilha das Flores, Região do Baixo São Francisco, a procura de trabalho, depois de perder o emprego em uma fazenda de arroz.

Longe do barulho do trânsito e do vai e vem das pessoas focadas nas compras, o senhor de olhar triste revela um desejo nas primeiras horas da manhã. "Bom é tomar um banho, né? Primeiro. Às vezes eu tomo banho outras vezes não. Hoje mesmo não tomei. É difícil", conta deixando escorrer lágrimas no rosto, enquanto permanece sentado na cama improvisada feita de papelão.

A conversa é interrompida por uma buzina. Uma senhora entrega uma quentinha, que é a primeira refeição do dia. “O povo aqui é muito solidário. Essa mulher vem todos os dias”, conta.

Quanto mais se entra nas ruas do comércio, mais pessoas são encontradas dormindo sobre o papelão, algumas usam plásticos para os dias de chuva, outras um lençol para as noites frias. Quem está acostumada a essa situação, nem mesmo os raios intensos do sol do Nordeste interrompem o sono de quem nem sempre tem uma noite e madrugada tranquilas.

Há três quilômetros dali, na rotatória do Posto Sinhazinha, na Zona Sul, caixas de papelão protegem tudo o que dona Maria Silva possui. A área cercada no meio da praça é sala, quarto, cozinha, tudo junto. Doações se espalham nos chão, são roupas, cadernos, livros. Tudo o que a flanelinha recebe fica por ali.

O barraco improvisado não tem teto. “Ontem, estava chuviscando. Aí joguei o papelão e botei por cima deles”, apontando para dois netos e a filha que passaram a noite anterior com a avó. E segue: “Eu morava no Parque dos Faróis, tinha uma casa, aí a casa caiu. Cheguei a ter auxílio moradia, mas perdi depois que fui morar na Bahia”, conta.

O trabalho da dona Maria começa quando o trânsito fica mais intenso. Com água, sabão e uma espécie de rodo, dona Maria Silva limpa os vidros dos carros, ganha sorrisos, moedas e proibições para não limpar o veículo, tudo em alguns minutos enquanto o sinal permanece fechado.

"Estou suja porque limpo vidro de carro, mas tem gente que discrimina, que pensa que a gente é ladrão. Não são todos que são ladrões, não é todo mundo que quer estar nessa vida. Eu queria ter uma vida digna para dar a meu neto uma casa, um teto, uma comida, um trabalho", desabafa.

Consultório das Ruas

Há pouco mais de dois anos, uma equipe do projeto Consultório nas Ruas, da Secretaria da Saúde de Aracaju, iniciou um trabalho com essas pessoas. Música e conversa se intercalam nos atendimentos das equipes que contam com vários profissionais, como assistente social, médico e psicólogo.

O médio Edney Vasconcelos explica que sair do consultório convencional e fazer o atendimento nas ruas é viver uma experiência desafiadora e ao mesmo tempo de aprendizado para o profissional, independentemente do tempo de atuação.

"A gente pensa que vai ser um ambiente violento, um ambiente perigoso. Pelo contrário, a gente é muito bem recebido. Afinal, quem é que não gosta de cuidado? Nas abordagens à noite, a gente já foi até protegido por alguns deles. Eles querem ser cuidados, ainda mais eles que estão em uma trajetória de invisibilidade. Eles querem ser visíveis", observa.

Edney conta que se depara com problemas de saúde que exigem atendimento rápido. “A gente vê muitos casos de infecções de pele, por exposição ao sol e a chuva. Inclusive temos casos de tuberculose. Estamos acompanhando mais de perto sete casos. O fato é que essa população tem 10 vezes mais chances de adquirir a doença e infecções respiratórias por conta da vulnerabilidade", justifica.

A psicóloga e coordenadora do Consultório nas Ruas, Kamila Fialho, destaca os motivos que levam a situação de rua . "É bem comum a gente encontrar pessoas que tiveram problema conjugal. Outro motivo são os transtornos mentais, os andarilhos que se perdem da família e acabam ficando na condição de rua”, explica.

Uso de drogas

O G1 Sergipe conversou com um homem de pouco mais de 30 anos, que trabalha como flanelinha na Região Cental de Aracaju, e há um mês está nas ruas. Ele conta que os entorpecentes foram os responsáveis por afastrar-se da família, que já ofereceu tratamento em casas de apoio, mas optou por unir-se a outros usários na ruas.

“Não sou o primeiro e nem vou ser o último, mas o crack tem complicado muito a vida, não só a minha, como a de muitos amigos que se encontram na mesma situação. E poucas pessoas entendem o nosso lado. Não sabem que isso é uma doença crônica, né?", diz, enquanto faz o café da manhã com doações de um grupo religioso.

O homem também revela que o maior desejo é livrar-se do vício. “Ainda hoje vivo nas drogas, tentando me segurar para não usar o crack. Maconha fumo todo dia, que é para tentar esquecer o outro lado, mas só que isso também é ilusão, né? Uma grande ilusão e eu não consigo largar o vício de jeito nenhum", justifica.

A psicóloga Kamila Fialho explica que eles transformam a droga em solução, acreditando que se não fizerem uso não vão resistir. “Um dos efeitos colaterais da droga é a resistência, é a coragem, é a agressividade. A gente tem um número altíssimo de pessoas nas ruas que fazem uso de alguma droga, lícita ou ilícita. Este é o nosso desafio na articulação com a saúde mental para ver como a gente pode reduzir o dano desse uso abusivo", relata.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/se

Já comi várias coisas do lixo', revela jovem que vive nas ruas de Aracaju

 Robson Santos Melo  vive há 7 anos nas ruas de Aracaju (SE) 
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

Jovem coleta material reciclado nas lixeiras.
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

Publicado originalmente no site G1/SE., em 22/12/2017 

'Já comi várias coisas do lixo', revela jovem que vive nas ruas de Aracaju

No dia do aniversário, Robson Santos conta que queria ter um lugar para descansar depois de passar um dia inteiro catando material reciclado.

Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

Sexta-feira (22) de dezembro de 2017. Há 24 anos nascia o sergipano Robson Santos, um jovem que a equipe do G1 Sergipe encontrou circulando com um carrinho cheio de material reciclado, recolhido nas lixeiras de Aracaju (SE).

"Rapaz, se eu botar mesmo pega até 400 quilos. Aí tenho que esvaziar. Quando eu coloco esses quilos eu procuro um ferro velho para esvaziar”, conta Robson Santos Melo.

De corpo esguio, o rapaz passou o dia do aniversário em meio a uma maratona, que se repete há sete anos, desde que resolveu abandonar a família em São Cristóvão (SE) para morar nas ruas da capital.

Ainda meio assustado, ele revela que saiu de casa depois que o irmão foi assassinado. E a violência parece perseguir o rapaz. “Esses dias tocaram fogo em meu barraco e perdi tudo, inclusive meus documentos. Tenho que tirar tudo novamente”, lamenta.

Enquanto conversava, Robson não parava de remexer a lixeira à procura de latas de alumínio, papelão e garrafas pet. De tanto frequentar esses ambientes, o cheiro forte parecia não incomodar o rapaz, que trabalhava com pressa para adiantar a visita a outros locais na cidade.

Quando a fome aperta, se falta dinheiro para comprar alguma coisa, as sobras de comida encontradas nas latas de lixo também alimentam. “No lixeiro da padaria eu cato bolo, pão. Quando eu vejo que está bom, que não tem rato, pego a comida. Já comi várias coisas do lixo”, revela.

Questionado sobre o presente de aniversário que gostaria de receber nesta sexta-feira, ele diz que gostaria de sair das ruas e ter algum local para descansar quando chegasse do trabalho. “Um lugar sem ninguém para incomodar. Outra coisa, eu não sei negar nada a ninguém. Se eu tiver comendo e a pessoa chegar com fome eu pego e divido meu pão com a outra pessoa. Porque Deus disse: dai água a quem tem fome e dá comida a quem tem sede. E eu nunca neguei nada para ninguém", diz.

À noite nas ruas

Quando chega à noite, as dificuldades parecem aumentar para essa comunidade que tenta resistir às armadilhas da cidade. Solidão, desespero, medo e a incerteza do amanhã são conflitos que precisam encarar a cada dia.

"No dia-a-dia dessas pessoas em situação de rua, a psicologia favorece nesse processo de entendimento do ser no mundo, nos processos de vinculação, de retomada de vida, de reconstrução, de entendimento mesmo, de como as pessoas se enxergam, de como essas pessoas querem se ver. Aí a gente vai também para os transtornos específicos, os sinais de sintomas que dificultam o processo de tratamento, de relacionamento, que pode gerar uma agressividade excessiva", explica a psicóloga do programa municipal Consultório na Rua, Kamila Fialho.

Solidariedade

No processo de reconstrução, o socorro aos moradores em situação de rua chega em doações de grupos de apoio que levam alimentos, uma boa conversa e até mesmo música para aliviar o sofrimento.

Um desses é o Projeto Manaim, que usa o evangelho para retirar das ruas uma população mergulhada no mundo das drogas. "Nós trabalhamos com base na Palavra de Deus. Não é algo simplesmente religioso, mas as orientações que Cristo dá que é a cura de caráter", explica o pastor Manuel Ferreira Neto.

O trabalho do grupo é feito por voluntários que um dia também passaram pelas ruas e depois de conhecerem o projeto decidiram mudar de vida. Há sete anos, o missionário André Santos Silva mendigava nas ruas de Itabuna (BA).

"Dá uma emoção muito grande quando eu lembro que dormia na rua, 
que bebia, fumava, roubava e me prostituía. 
Já fiz muita coisa errada e o que não quero mais pra mim,
 não quero pra mais ninguém" - Roberta Bruna.

“A Bíblia diz que a fé move montanhas. E é essa fé que nos traz a esses locais pra que outras pessoas recebam a oportunidade de mudança. Eu tive a oportunidade dada pelo projeto Manaim e para glória de Deus hoje estou transformado", justifica.

Roberta Bruna é outra ex-moradora de rua de Aracaju. Há menos de dois meses também aceitou o chamado e toda semana retorna ao lugar que viveu por anos. O reencontro com os amigos é sempre difícil.

“Dói ver meus amigos ainda nessa vida, porque eu saí daqui. Então, dá uma emoção muito grande quando eu lembro que dormia na rua, que bebia, fumava, roubava e me prostituía. Já fiz muita coisa errada e o que não quero mais para mim, não quero para mais ninguém", desabafa Roberta.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/se

domingo, 24 de dezembro de 2017

Os maiores exemplos de desigualdade social no Brasil

Os maiores exemplos de desigualdade social no Brasil

A desigualdade social no Brasil, marcada pela distribuição desigual de renda, é evidente. Basta uma simples observação sobre a sociedade em que vivemos:

1. Favelização

Foto de favela e moradias de luxo

O cenário habitacional é um forte indício da condição de desigualdade. O aglomerado de casas, em grande parte construídas nos morros, contrasta com as mansões e as casas em condomínios fechados.

Muitas vezes localizam-se muito próximas umas às outras, o que torna o contraste ainda mais chocante.

As favelas não passam por qualquer tipo de planejamento e as casas tendem a aumentar à medida que as famílias crescem.

Por outro lado, isso não acontece com as casas nobres, as quais são cuidadosamente projetadas.

2. Desigualdade alimentar

Menino mexendo uma panela de feijão no chão

Há pessoas que não têm condições para comer o mínimo necessário. Muitos passam fome, decorrendo daí quadros de desnutrição e muitos casos de mortalidade infantil.

Acresce que a prioridade na hora de comprar os alimentos é dada aqueles que sustentam mais, embora nem sempre sejam os mais saudáveis.

Por outro lado, existe uma fatia da sociedade cuja quantidade e, especialmente, a qualidade dos alimentos, é garantida diariamente.

Saiba mais em Fome no Brasil, Desnutrição e Mortalidade Infantil.

3. Falta de saneamento básico

Crianças no meio do lixo utilizando água suja

A realidade da falta de esgoto sanitário, do tratamento de distribuição de água, entre outros, infelizmente ainda faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros.

Sujeitas a uma série de doenças, a falta de saneamento básico pode levar pessoas à morte. Esse é um problema presente nas periferias e mais evidente na região norte do Brasil, mas que passa ao lado da classe alta brasileira, em cujos locais habitados e frequentados estão garantidos o tratamento dos esgotos e a coleta do lixo.

4. Ensino de baixa qualidade

Charge de professora lecionando

O acesso às escolas públicas é usufruído pelos que têm menos possibilidades. Isso porque quem pode dispensa o ensino oferecido pelo Estado, cuja condições são muitas vezes precárias, e investe nas escolas pagas.

A diferença é marcada pelos salários dos professores, muito superior na rede particular, o que se traduz no incentivo para dar aula. Além disso, a infraestrutura e os materiais disponibilizados nas escolas privadas reforçam as diferenças entre ambas as situações.

5. Menos formação

Rapaz usando capela com cifrão pendurado

Além da diferença na qualidade do ensino, quem tem mais poder aquisitivo pode completar a educação acadêmica aderindo a cursos, muitas vezes de valor elevado.

Os cursos de aperfeiçoamento, bem como as experiências no exterior, são práticas comuns entre os mais favorecidos socialmente. Dos intercâmbios, eles também levam a oportunidade aprender uma segunda língua.

Melhor preparados, os mais favorecidos ultrapassam o nível dos que têm menos oportunidades, o que é mais uma prova de desigualdade social.

6. Desemprego

Carteira de trabalho e caneta em cima de Classificados

Depois de usufruir de um ensino melhor, os candidatos mais qualificados também podem aproveitar um leque de oportunidades de trabalho mais abrangente.

Apesar de não ser garantia para conseguir uma vaga no mercado de trabalho, quando não há muitas vagas, o diferencial é o fator de desempate.

Além das possibilidades aumentarem, é possível que o valor das remunerações para os mais qualificados também seja superior.

Enquanto isso, os menos qualificados fazem “bicos” para conseguir arcar com as despesas diárias.

7. Precariedade na saúde pública

Vários leitos em corredor de hospital

Os mais pobres recorrem aos hospitais públicos, deparando com a falta de profissionais e outros.

A carência financeira pode ser tão grande que a falta de materiais e de medicamentos se torna uma realidade para as pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Enquanto isso, os mais ricos recorrem aos hospitais privados ou clínicas. Neles a gestão de recursos geralmente é mais eficaz e há tecnologia para assistir a necessidade dos seus pacientes.

8. Precariedade no transporte público

Pessoas tentando entrar no autocarro

Os meios de transporte também fazem a diferença na vida das pessoas com mais ou menos renda.

A alternativa dos mais carenciados é a utilização de transporte coletivo, muitas vezes, superlotado. Na maior parte do Brasil esse é um serviço ineficiente, principalmente porque não garante acesso a toda a população.

Os mais favorecidos recorrem ao seu próprio meio de transporte. Apesar do estresse do trânsito, eles podem planejar de forma mais independente os seus horários e percursos.

Garantem também o benefício de poder transportar suas coisas e ir sempre sentado, entre outros.

9. Falta de acesso à cultura

Charge cultura

A população mais favorecida tem mais oportunidade para usufruir de uma variedade alargada de atividades. São exemplos viagens, concertos e visitas a museus e exposições.

Esses acessos, infelizmente, são restringidos a uma grande parte da população brasileira. Isso porque certas atividades têm um grande peso no orçamento de uma família e, assim, entram na lista das prioridades menores, que acabam não sendo usufruídas.

Acontece que essas atividades aumentam a qualidade de vida das pessoas, além de que alarga o seu nível cultural.

Texto e imagens reproduzidos do site: todamateria.com.br

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Barroso diz que ele e Gilmar têm ‘diferentes visões da vida e do país’


Publicado originalmente no site da Folha de S.Paulo, em 19 de dezembro 2017

Barroso diz que ele e Gilmar têm ‘diferentes visões da vida e do país’

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), rebateu nesta terça-feira (19) as críticas do colega Gilmar Mendes sobre a condução das investigações da Lava Jato pela PGR (Procuradoria-Geral da República) e disse que eles têm “diferentes visões da vida e do país”.

Reprodução

Não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho e naturalizou as coisas erradas”, afirmou.

Na última sessão do STF em 2017, os ministros julgam recursos dos investigados nas ações que envolvem o presidente Michel Temer. Os alvos da PGR pedem para que as investigações sejam sobrestadas, assim como as duas denúncias apresentadas contra o presidente da República, que foram barradas pelos deputados federais.

Gilmar interrompeu o voto do colega Dias Toffoli para criticar a condução do ex-procurador-geral Rodrigo Janot na Lava Jato. Ele e Janot protagonizaram diversos embates públicos ao longo dos últimos dois anos.

Gilmar disse que o STF se depara agora com “o que é o peso de um trabalho mal feito”, o qual classificou de “precipitado”, “sem análise” e que “causa esse tipo de constrangimento” para o tribunal. Com o voto de Gilmar, a segunda turma do STF livrou nesta segunda-feira (18) quatro políticos denunciados por Janot na Lava Jato e seus desdobramentos de virarem réus no Supremo.

“Ontem decidimos vários casos que com base em delação não poderia se oferecer a denúncia. O que é importante é que o relato era totalmente falso”, disse Gilmar.

Segundo ele, há um sentimento “Janotista”.

“Esse era o trabalho que se fazia. Trabalho mal feito. Acabamos de ver a policia federal. o delegado da Polícia Federal dizer trabalho mal feito”, afirmou, em referência aos relatórios da PF que não sugerem indiciamento de políticos por não encontrarem indícios de autoria e materialidade dos crimes.

Durante as críticas, o ministro usou as expressões “grande patifaria”, “grande erro” e “populismo criminal judicial” e “serviço malfeito, corta e cola”.

“Erros graves que temos cometido. A história não vai nos poupar.”

“Há diferentes formas de ver a vida e todas merecem consideração e respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio ‘Tem que manter isso aí, viu’. Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, vi a corridinha na televisão”, afirmou, em referência ao momento em que um vídeo feito pela PF mostra o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures pega uma mala de dinheiro entregue pela JBS e sai correndo em frente a uma pizzaria em São Paulo.

Ele acrescentou que leu os depoimentos de delatores da Lava Jato, como os do doleiro Alberto Youssef e do corretor de valores Lúcio Funaro, que incriminaram dezenas de políticos.

“Vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim: o agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois distribuir dinheiros.

Aí não faz diferença se foi para o bolso ou se foi para a campanha, porque o problema não é para onde vai [o dinheiro], mas de onde vem”, afirmou.

Barroso disse ainda que “a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo com maus exemplos em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros para trás, todo mundo quer conseguir o seu, sem mencionar as propinas para financiamento, tudo documentado”.

E então defendeu a condução de Janot na Lava Jato.

“São diferentes visões da vida e do país. Não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com cem gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais.”

Fonte: Folhapress

Texto e imagens reproduzidos do site: oestadoce.com.br

domingo, 17 de dezembro de 2017

A população em situação de rua é um reflexo da exclusão social


 A população em situação de rua é um reflexo da exclusão social

Por Wagner de Cerqueria e Francisco

A questão da moradia é um dos reflexos da exclusão social, em que parte da população não possui renda suficiente para pagar o aluguel de uma residência e, muito menos, comprar uma casa. Nesse sentido, tem-se intensificado a ocupação de espaços considerados inadequados para a moradia como, por exemplo, fundos de vale, áreas de elevada declividade, áreas destinadas à construção de equipamentos públicos, além de espaços urbanos como: praças, viadutos, prédios abandonados, etc. As pessoas que utilizam as ruas da cidade para fins de moradia são conhecidas como população em situação de rua.

Em 2005, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, através da Secretaria Nacional de Assistência Social, organizou o primeiro Encontro Nacional Sobre População em Situação de Rua. Durante esse evento, a população em situação de rua foi caracterizada como um grupo populacional heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que tem em comum a condição de pobreza absoluta, vínculos interrompidos ou fragilizados e falta de habitação convencional regular, sendo compelido a utilizar a rua como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente.

Além de aspectos econômicos, indivíduos utilizam as ruas como moradia por consequência de violência doméstica, ausência de vínculos familiares, perda da autoestima, uso de drogas, doença mental, etc. A população em situação de rua é subdividida em três grupos, nos quais ocorre a distinção conforme a permanência na rua.

- As pessoas que ficam na rua: grupo caracterizado por indivíduos que, por alguma circunstância, como a busca por emprego e fatores econômicos não suficientes para o abrigo em locais adequados, utilizam determinados espaços que possam proporcionar maior segurança como, por exemplo, albergues e rodoviárias para passarem a noite.

- Pessoas que estão na rua: esse grupo não interpreta a rua como um lugar para se temer, se relacionando com outros moradores de rua. Também realizam algumas atividades para obtenção de renda como vigiar carros, recolher materiais recicláveis, entre outras.

- Pessoas que são da rua: já utilizam esses lugares como moradia há um bom tempo e, de certo modo, se acomodaram com tal situação que, em consequência do uso de drogas e da má alimentação, degradam sua saúde. O álcool e as drogas são substâncias presentes nesses grupos, pois servem como alternativa para minimizar a fome e o frio.

As poucas políticas públicas visando o atendimento desse grupo fizeram com que historicamente tenha se destacado o trabalho das Organizações Não Governamentais (ONG’s) e das Instituições Religiosas. No geral, estas instituições atuam na distribuição de alimentos, cobertores e outros objetos. Entretanto, essas medidas assistencialistas não atacam o foco do problema, havendo, portanto, a necessidade do Estado aplicar projetos eficazes para proporcionar dignidade a esses indivíduos.

Texto e imagem reproduzidos do site: alunosonline.uol.com.br

A desigualdade social é um dos principais desafios do mundo atual


Desigualdade social

A desigualdade social é um dos principais desafios do mundo atual e sua concepção perpassa por várias esferas da composição das sociedades.

A desigualdade social diferencia as pessoas nas condições de acesso a novas oportunidades

Por Rodolfo F. Alves Pena

A Desigualdade social é o fenômeno em que ocorre a diferenciação entre pessoas no contexto de uma mesma sociedade, colocando alguns indivíduos em condições estruturalmente mais vantajosas do que outros. Ela manifesta-se em todos os aspectos: cultura, cotidiano, política, espaço geográfico e muitos outros, mas é no plano econômico a sua face mais conhecida, em que boa parte da população não dispõe de renda suficiente para gozar de mínimas condições de vida.

Inúmeros dados e estudos apontam que a desigualdade social e econômica cresce em todo o mundo. Dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) revelam que 1% dos mais ricos detêm 40% dos bens globais. Um relatório da ONG Oxfam demonstra também que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem uma renda equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres.

Diante desse panorama, que gera inúmeros excluídos e miseráveis em todo o mundo, surge a questão: o que causa a desigualdade social?

A grande questão é que, desde as construções das civilizações durante o período neolítico, quando as sociedades passaram a viver dos excedentes que produziam, as diferenças sociais começaram a surgir. O problema, nesse caso, é a intensificação da pobreza e da falta de equidade nas condições oferecidas para que os diferentes indivíduos possam produzir suas próprias condições de sobrevivência.

O teórico Jean-Jacques Rosseau afirmava que a desigualdade é um fenômeno que tende a sempre se intensificar no contexto social. As famílias mais pobres possuem um menor acesso à instrução e às informações necessárias para alavancar um desenvolvimento próprio, enquanto os grupos mais ricos possuem um maior nível estrutural para investirem e multiplicarem sua renda e os largos benefícios advindos dela. Para Rosseau, o que causa a desigualdade é exatamente a divisão social do trabalho, com a criação da propriedade e dos bens particulares e não distribuíveis.

Outro pensador famoso por categorizar essa questão foi Karl Marx. Ele enxergava a sociedade a partir da luta de classes e via a desigualdade manifestada a partir dos desequilíbrios entre a burguesia e os trabalhadores, haja vista que a primeira era a detentora dos meios de produção, controlando e retendo a maior parte dos lucros sobre os bens produzidos a partir do trabalho coletivo. Essa lógica, perpetuada pela mais-valia, concentrava a renda e marginalizava os cidadãos, além de criar o exército de reserva de desempregados, que garantia uma concorrência entre os próprios trabalhadores, privando-os de sua emancipação.

Max Weber, por sua vez, observou essa questão a partir das estratificações sociais. As três grandes estratificações ocorrem no campo da economia, do status e do poder, proporcionando uma diferenciação no acesso à renda, ao prestígio e ao controle social. Essa acontece por meio da diferenciação entre habilidades, qualificações e interesses.

A desigualdade social, seja ela intelectual, econômica ou sob qualquer outra forma, materializa-se no espaço social, ou seja, torna-se visível na composição estrutural das sociedades, sejam elas rurais ou urbanas. As cidades e os lugares expressam a diferenciação econômica entre as pessoas, que é resultante, muitas vezes, de questões históricas que submetem cidadãos e até grupos étnicos a contextos de subalternidade. Um exemplo foi o processo de escravidão que até hoje deixa suas marcas no sentido de manter a maior parte da população negra com baixos níveis de renda e educação.

​O espaço social é revelador das desigualdades sociais

O espaço geográfico, por definição, expressa e é expressado por essas configurações. Muitas sociedades são conhecidas por serem a própria visão da desigualdade, com destaque para muitos países africanos e outros centros periféricos do mundo. Mas não é somente aí que reside a miséria e a pobreza do mundo, que também se apresentam nas periferias de grandes cidades, até mesmo em metrópoles mundiais, tais como Paris, Nova York, Tóquio e Londres. Portanto, lutar contra a desigualdade é uma forma de manter a sociedade mais humana e justa perante os seus cidadãos.

Texto reproduzido do site: alunosonline.uol.com.br